A escola, o luto e o amanhã

Por Lisandro Frederico

Era cedo. Sete horas. Hora do sinal de entrada dos alunos em uma das mais tradicionais escolas suzanenses. Mas, hoje, lamentavelmente, não havia crianças e adolescentes falando, brincando. Havia apenas o silêncio. Um silêncio ensurdecedor. Dolorido. Não havia comentários sobre a série do momento, o youtuber ou a banda preferida. Muito menos conversas sobre o futuro e os problemas juvenis. Nada pode ser ouvido.

Para quem estudou ou trabalhou na Escola Estadual “Professor Raul Brasil”, ouvir as conversas da multidão de adolescentes era a indicação de que naquele momento começará mais um dia de estudos, da busca da concretização dos sonhos e da renovação da esperança.

Eu e tantos outros suzanenses sabemos muito bem o quanto este sinal de entrada na Raul Brasil se faz ouvir. É estridente e soou aos ouvidos de várias gerações da minha família. Da formação do meu pai, do meu irmão, dos meus tios, e até chegar na minha.

Nesta quinta-feira, o sinal barulhento disparado no momento saída não foi acompanhando de nenhum “até amanhã”. O amanhã, para 10 pessoas, não existirá mais. A escola estava silenciosa. Fechada. Cinza. Triste. Não havia mesmo motivos para o contrário.

Os estudantes da “Raul Brasil” deixaram as salas de aula. Eles foram se despedir daqueles que um dia compartilharam sonhos e frustrações. Um cenário onde não deveria e não merecia estar e vivenciar.

Mas, aconteceu. De novo. E, agora, na nossa cara, na nossa casa. Na escola onde estudei por muitos anos. E de quem é a culpa? É nossa. Minha, sua, de todos. Enquanto nos preocupamos com frivolidades, nossos jovens estão fragilizados e expostos à insegurança e à intolerância.

Para que haja uma mudança real, o impacto desta tragédia para Suzano e para o Brasil deveria ser real, honesto. Provavelmente não o será. Não para todos que deveriam. Já tivemos tragédias parecidas no País e o que mudou? Nada. A repercussão será momentânea, até o próximo escândalo ou o próxima massacre.

Enquanto discutimos cortinas de fumaça e superficialidades, a escola se distância cada vez do deveria ser: um palco de aprendizado, onde a única preocupação dos jovens deveria ser com a prova final. Alunos não deveriam correr para tentar se salvar ou salvar um amigo. O pai e a mãe que deixam o filho na escola, deveria recebê-lo de volta. Sã e salvo.

Passados alguns dias, apesar de todo o trauma, será preciso que os alunos retornem à rotina. Eles vão ouvir novamente o sinal de entrada e junto dele, precisarão lidar como o medo e com toda a carga emocional que uma situação como esta traz.  É preciso amparar e oferecer suporte às sequelas que podem surgir a partir desta experiência traumática.

Que tenhamos o conforto necessário neste momento de luto. Que o crime bárbaro seja esclarecido. E que todas as autoridades possam direcionar um olhar especial a nossa Educação e aos nossos jovens.

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